Food styling que não engana o cliente final
Onde termina o capricho e começa a propaganda enganosa quando a foto vai para o cardápio de um restaurante.
Um dono de hamburgueria me mostrou uma vez a avaliação de uma estrela que tinha recebido no aplicativo. O cliente postou lado a lado a foto do cardápio e o lanche que chegou em casa. O da foto tinha o dobro de bacon e um queijo escorrendo que nunca existiu na cozinha dele. A foto tinha sido feita por outro fotógrafo, que montou o lanche com o dobro de recheio para ficar mais bonito. Funcionou na foto e virou reclamação no pedido.
O truque que vira reclamação
Os truques clássicos de estúdio, como purê no lugar de sorvete, cola no lugar de leite ou óleo de motor no lugar de calda, nasceram na publicidade de grandes marcas, onde a foto muitas vezes vende outra coisa e a comida é só cenário. No cardápio de um restaurante a situação é outra: a foto promete exatamente o prato que o cliente vai receber. Se ela mostra mais do que chega, a decepção cai no restaurante, e o Código de Defesa do Consumidor trata como enganosa a publicidade que induz o cliente a erro sobre o produto.
A regra que eu uso
Antes de montar qualquer prato, combino três coisas com o cliente e não abro mão delas: a porção é a mesma que sai para o salão, os ingredientes são os mesmos e a louça é a mesma. Dentro disso, posso caprichar o quanto quiser na montagem. Fora disso, a foto deixa de ser do restaurante.
Três ajustes que valem
1. Escolher a melhor unidade
Entre dez pães, eu fotografo o mais uniforme. Entre vinte camarões, os cinco mais bonitos. O cliente vai receber um prato do mesmo tamanho e com os mesmos ingredientes. Ele só não vai receber a seleção a dedo.
2. Montar com calma e com pinça
Uma folha virada para a câmera, o molho colocado com colher em vez de concha, a guarnição sem cair na borda. Isso é o que um cozinheiro faria se tivesse tempo, e é o que eu peço para o chef fazer na sessão.
3. Devolver o frescor que a luz tira
Um pincel com um pouco de azeite na carne, uma borrifada de água na salada, uma folha nova no lugar da que murchou embaixo da luz. Esses ajustes recuperam o aspecto que o prato tinha quando saiu da cozinha. Eles não inventam nada.
Onde fica a zona cinza
Alguns recursos não mudam o que o cliente recebe, mas também não são comida. Um palito escondido para segurar as camadas de um sanduíche alto, um algodão úmido aquecido atrás do prato para simular o vapor que já foi embora. Eu uso esses recursos quando o resultado mostra algo que o prato realmente tem na hora em que sai da cozinha. E aviso o cliente, para ele decidir se aceita. Se ele não aceita, faço sem.
Se o cliente receber o prato e achar parecido com a foto, o food styling funcionou.
O que eu faria no seu lugar
Antes da próxima sessão, escreva em uma frase o que você aceita e o que não aceita mexer no prato, e mande para o cliente junto com o orçamento.
- Combine porção, ingredientes e louça iguais aos do salão.
- Liste os ajustes que você usa e explique cada um em uma linha.
- Avise antes de usar qualquer recurso que não seja comida.
O dono do restaurante vai confiar mais no seu trabalho, e você não vai ver sua foto num print de reclamação.
Um e-mail por semana. Escolhe a trilha e chega só o que faz sentido para o seu lado.
Fotógrafo de comida em Curitiba há sete anos. Fotografa cardápio, delivery e campanha para restaurantes de todo o Brasil, e ensina outros fotógrafos na Academia Mitreska.